sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009



JORNAL – DIÁRIO DO NORDESTE

Fortaleza, 03 de junho de 2007
O poeta e o cineasta


Rosemberg: da proximidade, quase intimidade, com o poeta popular, nasceu o filme ´Patativa do Assaré – Ave Poesia´ (Foto: Gustavo Pellizzon) As imagens de um tempo passado, de quando o poeta popular Patativa do Assaré ainda não tinha a dimensão atual - e apenas encantava a própria comunidade - são trazidas pelas lentes do cineasta Rosemberg Cariry, do filme “Patativa do Assaré – Ave Poesia”. Cariry revela momentos únicos na vida do poeta e nesta entrevista lembra como foi todo o processo de construção do filme a ser exibido no 17° Cine Ceará, amanhã, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro


Como foi a primeira dessas gravações com o Patativa, que resultou no filme?


A primeira vez que filmamos foi em Assaré, por volta de 79, fotografado em super 8, pelo Jackson Bantim e o Luís Carlos Salatiel. Registramos o cotidiano dele, na roça, Dona Belinha cozinhando... Quando cheguei lá, era um amigo que estava chegando, era o filho de Zé Moura, que já tinha laços afetivos fortes. Passamos uma semana com ele dessa primeira vez, e o que me lembro era do cheiro do inverno na terra. O flamboyant, ele sentado naquela raiz, que virou quase um símbolo depois do Patativa, do homem enraizado. Foi a época em que ele foi homenageado pela SBPC, reconhecimento pioneiro de um poeta popular. E nós fizemos um grande show no Theatro José de Alencar, chamado “Canta Cariri”, e um recital do Patativa. Documentamos em super 8 o encontro dele com toda a geração ligada ao movimento de esquerda que na época se aproximou muito do Patativa. Ele virou uma voz. A gente acreditava que as nações tinham seus poetas, Neruda, Maiakovski... E a gente achava que o Patativa era esse poeta da expressão nacional, ou pelo menos nordestina.


Em todas essas ocasiões, você foi acumulando material de gravação...


É, e esse material ficou aí durante muito tempo. Depois eu me debrucei sobre acervos particulares, públicos, de TVs. Acho que Patativa foi uma das figuras mais fotografadas, filmadas e documentadas das artes do Ceará, as pessoas faziam verdadeiras romarias à casa do Patativa. Tanto que ele não morreu só, morreu cercado pelo povo. Eram ônibus e mais ônibus, todo mundo queria ver o Patativa, queria uma foto com ele. Todo mundo tem uma história do Patativa pra contar, um verso pra dizer. Foi o poeta de expressão popular.


Ao longo dos anos, foram tantas tentativas de apreender o que seria Patativa, pelo olhar sociológico, antropológico, político, lírico... De que forma você avaliou que faltava ele ser mostrado?


Eu acho que o Patativa é isso mesmo e vai ser sempre assim: um poeta de uma grandeza tamanha que vai ter sempre múltiplas interpretações. A compreensão ecológica, o poeta extraordinário, de enorme sensibilidade no trato com a compreensão da alma humana, o cronista dos costumes do sertão... Há uma representação do Patativa, que é muito dura, concreta, de quem viveu aquilo tudo, mas há uma outra dimensão mais interna, de quem viveu dentro do sertão e teve o sertão dentro de si. E há o poema dele que diz que as almas boas ficam pela terra, fazendo caracol sobre o sertão, levantando a poeira dessa terra. Uma forma telúrica e ao mesmo tempo cósmica. Agora, uma dimensão pouco conhecida é a do Patativa religioso. Ele tinha noção, muito consciente, da grandeza da sua arte. Sempre se considerou, de certa forma, um instrumento de Deus. É como se fosse apenas um instrumento de uma vontade muito maior. “O poeta é sobrenaturá”... Daí a humildade.


Tendo tanto material, e um material de um ponto de vista tão privilegiado, por que a opção de deixar o filme com não mais que 80 minutos?


Montei cinco episódios de uma hora cada. Então é um filme de cinco horas, dividido da seguinte forma: décadas de 10 e 20 num filme, 30 e 40 noutro, e assim por diante, de modo que abordo os grandes acontecimentos do século XX a partir da poética e da visão do Patativa. É possível que depois esse material, que é mais experimental, tenha uma circulação de TV. Resolvi fazer o filme de 80 minutos por conta da possibilidade das pessoas verem em salas de cinema, universidades. Não tive a preocupação de montar um filme de grandes exercícios estéticos. Deixei o cineasta um pouco mais de lado, deixando que o filme fosse o suporte da grandeza, com a mesma simplicidade, singeleza e força - o que é uma pretensão muito grande. Mas a idéia foi essa. Mostro praticamente toda a história da década de 60 e 70, até a redemocratização, e redimensiono a partir da poesia do Patativa: Figueiredo, Médici , a Transamazôncia, essas coisas. Tem toda uma leitura política. Estou terminando ainda esse material mais extenso. Na verdade, todo o meu acervo do Patativa, que somado deve ter mais de 100 horas de gravação, eu vou disponibilizar pro Estado. Quero que se transforme num patrimônio público.

Dentro de todas essas possibilidades, qual foi o seu critério para esse filme?

Quando o Patativa morreu, eu estava viajando. E a notícia na mídia foi fria. “Patativa morreu”. Um poeta como Patativa não morre. Ele já estava num processo de transformação em mito. Eu pedi a um pessoal que documentasse o velório. Durante muito tempo, eu não quis ver essas imagens, porque foi realmente uma dor profunda, ver a imagem do Patativa morto. Ao mesmo tempo, era uma imagem importante, uma virtualidade. E foi essa virtualidade que me levou à compreensão de uma coisa concreta: a morte, a finitude. Aí resolvi começar o filme com um redemoinho no sertão, até a poeira secar, como se fosse o espírito. A partir daí a gente passa pro velório, e Patativa recita como se estivesse vivo. E daí contamos a vida dele. E termino o filme com uma criança andando na vastidão do sertão, ele dizendo como foi que nasceu, em que ano, no poema chamado “Autobiografia”, em que ele diz que aprendeu tudo quanto sabia lendo aquele livro da natureza. Essa é uma imagem muito forte, porque não se vê nada ali. E ele viu tudo.


Que outros aspectos da vida dele estão presentes no filme?


Tem um depoimento que ele fala da importância das crianças pra vida dele. E a partir daí passo pelas ligas camponesas, pelo movimento de luta pela reforma agrária. Consegui depoimentos de pessoas que estavam no Partido Comunista, falam sobre os jornais comunistas que ele lia. De certa forma, mostro um outro lado do Patativa que é um pouco nebuloso, essa ligação um pouco clandestina com o movimento sindical. Tem um momento dele dizendo que já tinha lido Max. Isso não quer dizer muito, mas é curioso. Porque a poesia dele é maior que uma dimensão política no sentido doutrinário. A política dele é muito maior, o homem, a terra, o direito à felicidade. Tem que se compreender que mesmo nossa geração querendo um Patativa socialista, ele era esse socialista. Mas era um socialista cristão.


Com todo interesse da mídia, Patativa certamente não ficou imune ao assédio. Como é que ele lidava com o fato de ter uma câmera à frente?


Ele agia com muita naturalidade. Os nossos diálogos terminavam sendo conversas, e o que é interessante é que nessas conversas ele revelava muitas coisas, tanto sobre política, quanto coisas engraçadas, coisas sobre amigos... Agora, com relação à mídia, é tamanha sagacidade de Patativa, que ele sempre teve a mídia como instrumento. Eu não acho que Patativa foi usado pela mídia; acho que ele usou a mídia muito bem. Ele sabia sempre fazer, colocar na pena do jornalista aquilo que ele queria dizer. Sabia que jornal era, como era, que tendência tinha, e que recado ele queria mandar. Sabia muito bem onde estava pisando. De tal forma que a imagem pública do Patativa é de certa forma construída. Ele sabia o que era o Patativa público e o que era ele mesmo.


Mas você sentia uma diferença ao ligar a câmara, ou você preferia apostar no documentário por um olhar pretensamente neutro, abstraindo a câmara?


No meu caso, era diferente porque eu fazia parte desse círculo de amizade, de compadrio. Eu sempre ia visitá-lo. Mas acho que sempre que iam jornalistas, imprensa, TV, ele sabia como se portar e o que dizer. E olhando os jornais de cada momento político daqueles, você percebe que ele tá passando a mensagem que ele queria direitinho.


Pra concluir, qual sua avaliação do momento do audiovisual cearense? Por que tão poucos longas estão sendo produzidos?


É até uma coisa excepcional, eu estar estreando os longas: além do Patativa, o “Cine Tapuia”, que é mais um filme meu que termina nessa pergunta, de quem somos, qual a nossa identidade. Tem a Myrlla Muniz, Rodger Rogério, uma homenagem também que faço ao Cego Aderaldo. Acho que cinema virou uma cosia de seleção da vida e uma forma generosa de homenagear pessoas que considero importantes. Dedico o filme ao Nelson Pereira, inclusive. Mas tive muita dificuldade pra fazer, passeis seis, sete anos pra fazer. Estamos num momento muito difícil no Ceará. Já fomos o terceiro pólo produtor, e fomos retrocedendo e retrocedendo a ponto de, durante a gestão da Cláudia (Leitão, secretária de Cultura do Governo do Estado durante a gestão Lúcio Alcântara, de 2003 a 2006), ter se tornado uma coisa realmente desastrosa. Ter acabado o Instituto Dragão do Mar, com a efervescência que havia do audiovisual, o longa-metragem praticamente desaparece. Enquanto isso, Pernambuco deu um salto, a Bahia chegou e também saltou, estão falando em um pólo de 100 milhões por ano pra produção, Pernambuco está fazendo 10 longas por ano. E o Ceará, que começou a conquistar um espaço nacional e internacional, com vários prêmios, que não se cria de uma hora pra outra, leva tempo e amadurecimento, tem que recomeçar do zero. É uma coisa muito dolorosa. O nosso cinema é um espelho quebrado.

(DALWTON MOURA – Repórter)

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