segunda-feira, 2 de março de 2009

Entrevista para o Jornal O Povo


1. Para começo de conversa, queria que você me falasse como foi que ficou amigo do Patativa. Você era um jovem envolvido com o movimento cultural do Crato, numa época emblemática. Como se dá, então, o encontro desse jovem com o poeta velho que canta os anseios da juventude?

R – No Crato, no início da década de 1960, meu pai era dono de uma bodega, e o meu avô era dono do Bar Tupy. Esses dois locais eram pontos de encontro de muitos artistas populares que vinham para a feira, também de operários e boêmios, que ficavam à noite discutindo política e as notícias que ouviam no rádio de ondas tropicais que meu avô mantinha no seu estabelecimento. Ali conheci Cego Oliveira, Cego Heleno, Dona Ciça do Barro Cru, Severino do berimbau de lata, Mestre Aldenir, Zé Gato, Azuleica, os irmãos Aniceto e outros grandes artistas populares. Entre eles, conheci Patativa do Assaré, que era amigo do meu pai e freqüentava sempre o Bar Tupy. Eu gostava de ficar ouvindo-o recitar para os feirantes e, como ele sabia do meu interesse por literatura, por poesia, fizemos esta amizade, desde esse tempo, quando eu ainda menino. Muitas vezes, convidado pelo meu pai, ele ia almoçar na minha casa e lá ficava contando causos, recitando poemas. Tanto meu pai, como o meu tio Jetro, gostavam muito de poesia e de literatura de cordel, de histórias engraçadas, de causos. Esta foi uma escola importante para mim. A minha primeira produção artística foi em 1969, quando fui presidente do “Grêmio Estudantil Sagrada Família”, no Seminário do Crato e lá organizei um Festival de Cultura Popular do Cariri, no qual Patativa se apresentou recitando, ao lado dos Irmãos Aniceto, do Cego Heleno, do Cego Oliveira, de Zé Oliveira e de outros artistas. Era tudo muito organizado, com cenário, som de boa qualidade, iluminação, bilheteria etc. A qualidade artística e técnica, porém, não impediu que o espetáculo desse um prejuízo danado. O meu pai teve de pagar a conta. Meu pai sempre “brincava” comigo, ficava rindo, lembrando este episódio da minha “primeira produção artística”. Este acontecimento inicial iria ter uma influência muito grande sobre os futuros movimentos culturais do Cariri e em Fortaleza, em relação à valorização e projeção da cultura popular, a partir de uma nova geração. Desde o início, Patativa surgiu como um mestre, uma voz rebelada, que preenchia os anseios dos artistas adolescentes da periferia do Crato. Eu morava na periferia, na ladeira do seminário.


2. A partir dessa amizade, foi você, Rosemberg, quem ajudou a mostrar o Patativa ao Ceará urbano que só olhava para a Europa. Os movimentos de 1970 para Fortaleza foram como um movimento modernista? Ou seja, forçou a cidade a olhar para si mesma e para o interior do Ceará?

R – No ano de 1970, fui estudar em Ouro Preto, em Minas Gerais. Esta viagem foi importante, pois entrei em contato com a riquíssima diversidade cultural e a contemporaneidade internacional do Festival de Inverno de Ouro Preto. Vi muito da vanguarda que se fazia no Brasil e no mundo. Voltei para o Crato, em 1972, cheio de idéias, e organizamos o “Grupo de Artes Por Exemplo”, na periferia, que editava uma revistinha mimeografada, fazia teatro, cinema super-8, recitais e performances muito ousadas para a época. Estreitamos nossa amizade com vários artistas populares, entre eles Patativa, que sempre convidávamos para participar das nossas atividades. Patativa (sempre zeloso na métrica e nas rimas) parecia divertir-se muito com aquilo tudo (ele adorava os versos “surrealistas” e experimentais de Geraldo Urano e as performances que fazíamos). Ao lado de jovens compositores, Patativa realizou recitais no Salão de Outubro, em praças públicas. Ele foi muito próximo desta geração que, no Cariri, fazia arte de vanguarda, amava os Beatles, os Rolling Stones, a contracultura norte-americana, as contestações e a “marginália”. Este grupo aproximou-se da cultura popular por questão de vivência e inserção no “caldo cultural” local, mas também impulsionado pelas visões da contracultura. Para nós, Cego Oliveira era como os primitivos cantores de blues do Alabama e Patativa do Assaré era o nosso Atahualpa Yupanqui. Vivíamos assim um clima de tradição e modernidade, de continuidade e ruptura, de regionalidade e de universalidade, ao mesmo tempo. Um período muito agitado, muito vivo e cheio de sonhos irrealizáveis, em plena ditadura militar. Quando eu chego a Fortaleza, a partir de 1976, participo de movimentos coletivos como o “Nação Cariri”, a “Massafeira” e o “Siriará”. Junto comigo, trago toda esta experiência coletiva do Cariri e abro caminho para estes mestres da cultura popular da região, sobre os quais, junto com Oswald Barroso e Firmino Holanda, escrevemos em jornais, produzimos recitais, discos e filmes. A chegada dos artistas populares à Fortaleza que, como entreposto comercial da elite litorânea, menosprezava o sertão equivale, simbolicamente, a uma segunda “Sedição de Juazeiro”, quando, em 1914, os romeiros do Padre Cícero invadiram Fortaleza. Significa, simbolicamente, uma “Confederação dos Cariris”, uma nova “invasão dos bárbaros”. Toda essa valorização da cultura popular nos dias de hoje deve muito a este tempo de “cultura insubmissa”. É preciso não esquecer que os nomes mais significativos da música cearense naquele momento, como Fagner, Ednardo, Belchior e Fausto Nilo chegaram também do interior, do sertão. No teatro, na música, na dança, no cinema, no jornalismo, nós encontrávamos os que chegavam do sertão. E o mar virou sertão.


3. Você já chegou a dizer que agora Patativa é querido por todo mundo, mas em algum momento a poesia popular dele não era bem vista pelos eruditos. O que mudou?


R
– Patativa do Assaré é Antônio Gonçalves da Silva, um humilde camponês da Serra de Santana. Saído da pobreza, padeceu fome nas grandes secas, viu muitos dos seus filhos morrerem e sofreu muito como roceiro, mal ganhando com que sustentasse a sua família, daí fazer cantoria de viola, como forma de ganhar algum dinheiro extra. Patativa foi um autodidata. Depois de algumas aulas com um mestre-escola, durante poucos meses, aprendeu a ler sozinho e depois leu os grandes clássicos da literatura. Havia um preconceito muito grande com o que era considerado popular, pela cultura do povo. Os intelectuais cearenses, afastados da realidade e da cultura do seu povo, viram em Patativa, inicialmente, apenas mais um “cantador” de viola, um poeta matuto, um analfabeto, um cego de feira, um aleijado. Então Patativa se fez, construiu-se, atraiu a atenção de todo o País sobre a sua poesia. Isto começou a mudar com as apresentações de Patativa em Fortaleza, com sua presença em jornais e revistas literárias feitas por jovens, com as publicações dos seus livros, por editoras de circulação nacional, a partir da década de 1970, e do reconhecimento do seu nome por importantes críticos literários e personalidades da vida pública brasileira. A partir de 1989, Patativa se fez presente nos grandes movimentos políticos e sociais que conquistaram para o Brasil a volta das liberdades democráticas. Na década de 1980, Patativa do Assaré já simbolizava, para os jovens nordestinos, um poeta de expressão nacional, uma voz da resistência e das lutas libertárias. Ele se transformou em um patrimônio cultural e afetivo do povo nordestino. Suas canções foram gravadas por importantes nomes da MPB, seus livros tiveram sucessivas reedições, seus shows e recitais eram acontecimentos culturais da maior importância. O encontro de Fagner com Patativa foi muito positivo para os dois, gostaria de deixar isto registrado. O reconhecimento fora do Ceará, e também no exterior, levou a intelectualidade cearense a estudar a obra de Patativa e a melhor compreendê-lo. Digo isto, mas sempre houve exceções, um ou outro literato ou estudioso que bem antes reconheceu em Patativa a excelência literária. Na década de 90, Gilmar de Carvalho deu importante contribuição no estudo e na difusão da obra de Patativa.
O tempo trouxe novas percepções. Mudaram as formas de ver Patativa do Assaré. Acho que o Patativa vai ser sempre assim: um poeta de uma grandeza tamanha que vai gerar múltiplas interpretações. A compreensão ecológica, a consciência política, o poeta extraordinário, de enorme sensibilidade no trato com a compreensão da alma humana, o cronista dos costumes do sertão etc. Cada um vai destacar o que lhe toca a alma. Há uma representação do Patativa, que é muito dura, concreta, de quem viveu aquele sofrimento todo narrado nos seus poemas, mas há uma outra dimensão mais interna, de quem viveu dentro do sertão e teve o sertão dentro de si, como representação do mundo. Há o poema dele que diz que as almas boas ficam pela terra, fazendo caracol sobre o sertão, levantando a poeira dessa terra. Uma forma telúrica e, ao mesmo tempo, cósmica. Percepção parecida com a de Guimarães Rosa. Agora, uma dimensão pouco conhecida é a do Patativa religioso. Ele tinha noção, muito consciente, da grandeza da sua arte. Sempre se considerou, de certa forma, um instrumento de Deus. É como se fosse apenas um instrumento de uma vontade muito maior. Daí, talvez, a sua aparente humildade. Patativa do Assaré teve em vida o que muitos poetas, mesmos os mais reconhecidos e laureados, gostariam de ter tido: o reconhecimento, o carinho e o amor do seu povo. Sua poesia está em todas as bocas, de jovens e de velhos, no sertão e na cidade, como bandeira de luta e emoção maior, influenciando gerações.


4. Quem era Patativa? (Essa pergunta diz respeito ao conhecimento que você, Rosemberg, como homem, tinha de Patativa, alguém com quem você conviveu de perto e conhecia mais do que o que aparece na mídia. Essa pergunta fala dos aspectos humanos, reais, que formavam o ser Patativa).


R
– Quando falamos de Patativa, todos nós, que tivemos o privilégio de viver a amizade do poeta, falamos mais do “mito” do que do homem. Tudo passa pelo filtro da memória e, muitas vezes, reinventamos sombras na expectativa de desvendar verdades, ou o que pensamos ser verdades, dentro da nossa subjetividade, são interpretações da realidade aparente. Lembro-me de todos os acontecimentos públicos, quase épicos, do grande poeta. Do homem mesmo, de Antônio Gonçalves da Silva, o que eu me lembro? Da sua luta para deixar de fumar. Apostei com ele que deixava de fumar e deixei, ele nunca conseguiu. O tempo em que bebia, sentando-se à mesa do Bar Tupy, recitando poemas, não só sociais, mas também satíricos e eróticos. Das visitas que ele fazia ao meu pai, das conversas, dos causos contados, dos risos generosos. Do seu caráter forte, do seu código de honra severo, da autoridade forte na educação dos filhos. Uma graça: a sua imensa alegria em brincar com as crianças, em contar as tiradas inteligentes das crianças, em contar pequenas brincadeiras dos seus netos e afilhados. A Bárbara e Maíra, minhas filhas, eram muito queridas por ele. Sempre que me encontrava, Patativa me perguntava o que elas tinham dito de engraçado ou que tinham feito de interessante. Depois, ele sai recontando estas histórias e sempre ria muito. O mesmo acontecia em relação aos filhos de outros amigos. Quando estava zangado, era duro e não gostava que ninguém o fizesse de bobo. Não podemos esquecer também a sua generosidade, nunca explorou comercialmente a sua poesia, dava de graça versos seus para jovens compositores musicarem, era paciente com os pretendentes a “poetas”, convivia pacificamente com os poetas ditos modernos ou com as experiências mais radicais da vanguarda. Quando morreu Dona Belinha, sua esposa, ele sofreu muito, entrou em depressão, mas nunca abandonou a poesia. É interessante lembrar que Patativa quase não tem poemas de amor, no entanto, a sua dedicação a Dona Belinha, sempre me pareceu maior do que aquilo que um poema de amor pode expressar. Acho que ele, ao decidir entre “falar de amor” e “viver o amor”, preferiu a segunda opção. Acho eu, o certo é que ele quase nunca falava de amor romântico. Uma coisa de que ele não gostava: quando os amigos casados se separavam, porque ele perdia a amizade destas mulheres que terminavam por se afastar do seu círculo de amizade.


5. Como era o Patativa político?


R
– Patativa nunca foi um político partidário, a sua visão de política era mais ampla e se confundia com a ética, com o sentimento de justiça, com o seu cristianismo radical, próximo de um comunismo primitivo e panteísta. Ele tinha uma visão muito crítica da sociedade e das injustiças impostas, das opressões que sofriam os camponeses e os operários, mas, no fundamento disto, estava o homem. É claro que Patativa participou, como simpatizante, das “Ligas Camponesas”, manteve contato com lideranças camponesas e operárias ligadas aos partidos de esquerda. Depois Patativa se aproximou muito dos jovens que militavam no PCdoB, como Inácio Arruda e os artistas do “Nação Cariri”. Patativa subiu em palanques pela anistia, pelas eleições diretas e por muitas outras mobilizações sociais que considerava justas. Uma única vez participou de uma campanha partidária, em 1986, no movimento “pró-mudanças”, que coligou o PMDB, PC do B, PCB e PDC. Esta coligação derrubou os coronéis e elegeu o Tasso Jereissati, como Governador do Ceará, empossado em 1987. O Tasso, independente de qualquer viés ideológico, tornou-se um grande amigo de Patativa e chegava mesmo a se aconselhar com ele. Acho que, para o Tasso, Patativa era o arquétipo do velho sábio. Entre os seus amigos políticos, figuravam pessoas como Eudoro Santana, Inácio Arruda, Miguel Arraes, Violeta Arraes, Iranildo Pereira, dr. Raimundo Bezerra e dr. Landim, entre outros. Ele admirava muito Darcy Ribeiro e ficou muito contente no dia em que se encontrou com o grande antropólogo e político brasileiro. Darcy ficou comovido ao ouvir Patativa recitar. Na verdade, os dois ficaram emocionados, tratava-se do encontro de dois homens apaixonados pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Eu guardo também nos meus arquivos um poema que Patativa fez para o Lula na campanha de 1987, uma peça rara de consciência histórica e política. Vou dar este vídeo de presente para o Lula. Acho que foi a única vez em que Patativa gravou um vídeo pedindo voto para um candidato e a segunda em que participou de uma campanha eleitoral, mesmo sem subir nos palanques.


6. Patativa está longe de ser um poeta engajado. Ele canta algo universal. Havia a situação, mas ele cantava o homem. Como a poesia de Patativa ganhou a força que ela tem hoje?


R – Patativa era um poeta engajado, 24 horas por dia, no seu humanismo radical e na sua imensa sede de justiça e de liberdade. Isto é universal. Este é o Patativa que trago na memória e a quem sempre presto a minha homenagem. A grande visibilidade do Patativa acontece no período que vai da década de 1970 ao final da década de 1980. Acho que a publicação do livro “Cante Lá que eu Canto Cá”, por iniciativa do Plácido Cidade Nuvens, foi muito importante. Ele aparece para o grande público junto com a luta pela Anistia, pelas Diretas Já. Patativa aparece no processo de redemocratização do País, como poeta de um povo, como poeta de um sonho de liberdade. Porque, naquele momento, historicamente, necessitava-se de uma voz coletiva. A participação de Patativa no Congresso da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência - SBPC, na “Massafeira”, no show “Canto Cariri” do Grupo Siriará, e nos muitos shows que realizou com Fagner, também importantes. Oficialmente, a partir de 1987, quando a Violeta Arraes foi secretária de Cultura, o Estado do Ceará reconheceu a importância de Patativa. A sua intensa participação, no momento histórico em que se realizavam as lutas pela redemocratização do País, também alargou a influência da sua poesia, e ele se tornou um nome nacional. Começou mesmo a ter os seus poemas traduzidos para outros idiomas.


7. O que Patativa do Assaré significa para a cultura brasileira?


R
– A alma de uma nação é feita pelo povo e pelos grandes homens, sejam eles cientistas, políticos, líderes populares, músicos, místicos, artistas que expressam os sentimentos do povo. Patativa é parte da alma mais profunda da nação brasileira, é um dos grandes poetas da literatura nacional, é uma sensibilidade artística extraordinária, é parte da consciência política, social e histórica do povo brasileiro. Se o Brasil não tem ainda o seu poeta-nacional, que simbolize e expresse o sentimento de nação, como Garcia Lorca na Espanha, Pablo Neruda no Chile, Agostinho Neto em Angola, Camões em Portugal ou Nazin Hikmet na Turquia, o Nordeste brasileiro, popular e rebelado, tem o seu: Patativa do Assaré. Patativa do Assaré já figura entre os grandes nomes da poesia do Brasil e da América Latina por ter conseguido, com tanta arte e beleza, unir a denúncia social com o lirismo, a consciência política com a percepção humana mais profunda, o amor à natureza com o misticismo libertário. Aço e rosa. Quem lê a poesia de Patativa pensa, emociona-se e se transforma, porque nela estão todas as lutas e esperanças do homem, estão as palavras que se erguem com a dignidade dos justos. Reafirmo: é preciso um século inteiro para plasmar gênios como Patativa do Assaré. O século XX deu esse presente ao Brasil. É claro que o povo fica vaidoso com este presente.


8. Patativa foi cantado por Luis Gonzaga, Fagner, Abdoral Jamacaru, foi lançado no Brasil pela editora Vozes, teve muitos outros livros publicados. Como tudo isso mudou a realidade do próprio Patativa? Que força ele foi ganhando? Como sua poesia e sua performance foi quebrando barreiras para sua fala e para a temática que ela simbolizava?


R – Fala-se muito da modéstia de Patativa. Camponês, humilde e pobre, Patativa sempre teve consciência do seu real valor. Ele era uma pessoa muito inteligente, muito “antenada”. Nunca deixava que o enganassem. Ele sempre teve os parceiros que quis ter, sempre esteve nos palcos que escolheu, sempre soube o mínimo detalhe de cada contrato que assinou. Também tratava a imprensa de forma muito especial. Ele fazia com que a imprensa sempre reproduzisse o que ele queria dizer e, algumas vezes, muitos dos seus recados eram dados por meio da imprensa. Patativa chegou mesmo a virar um fenômeno de comunicação. Um “pop estar”, um querido da mídia. À medida que crescia o seu nome e a influência da sua poesia, mais ele se conscientizava do papel que estava jogando naquele momento histórico. Patativa fazia uma distinção entre o camponês pobre Antônio Gonçalves da Silva e o poeta famoso Patativa do Assaré, ele sabia zelar e defender esta imagem pública. No entanto, ele jamais deixou que a fama lhe subisse à cabeça. Por acreditar que a sua inspiração era um dom divino, ele não fazia comércio da sua literatura, deixava sempre as pessoas interessadas estipularem o preço que queriam pagar por um recital, por exemplo. O dinheirinho que ganhou nesta época ele investiu comprando uma casinha em Assaré, pois Dona Belinha, sua esposa, muito religiosa, sempre sonhara em morar com ele, próximo de uma igreja, e também na educação dos netos. Ele queria formar todos os netos, era o seu sonho. Na década de 1980, Patativa já tinha uma imensa experiência de palco e no tratamento com o público. Acho que isto ele aprendeu com o tempo, com as apresentações que realizou por todo o País. Ele sabia até mesmo onde fazer pausa, para que os aplausos viessem. Acho que nenhum poeta neste país teve a popularidade de Patativa. Ele sabia recitar e comovia o público até as lágrimas, ou sabia fazê-lo rir quando a situação exigia. Era um mestre da palavra e dos sentimentos.


9. O que você planeja ainda sobre Patativa?


R – Tenho proposto, em várias entrevistas e em visitas que tenho feito às autoridades, a construção do “Mausoléu Patativa do Assaré”, como símbolo concreto, como forma de perpetuar tão grande poeta que já mora no coração do povo. A idéia é bem simples. No pontão da Serra de Santana, onde nasceu e viveu Patativa, avista-se um bonito vale, onde está situada a cidade de Assaré. A idéia é cortar um dos imensos monólitos ali existentes na forma de um cubo (como a Kaaba, a pedra sagrada dos muçulmanos). Este imenso cubo de pedra será revestido com granito preto. Na própria pedra, será aberta uma cavidade, onde serão depositados os restos mortais de Patativa e de Dona Belinha. Apenas uma placa de bronze anunciaria o jazigo perpétuo. Seria um lugar bonito, com um jardim feito da flora caatingueira, um jardim Zen, onde se poderia contemplar a natureza e se fazer meditação. Talvez próximo se pudesse erigir uma capelinha de pedra, em estilo românico, de linhas austeras. Este local seria um templo da poesia do povo brasileiro.


10. Rosemberg, ainda é válido falar de cultura popular? Não existiria apenas a cultura e suas manifestações?


R – Se pensamos o homem que habita o pequeno planeta que chamamos Terra, como pertencente a única humanidade, sim, poderemos falar da cultura humana. Se levarmos em conta os povos, geograficamente e historicamente situados, em diferentes processos civilizatórios, com as suas cisões provocadas pelas economias, pelas divisões em classes sociais, pelas ideologias, pelas crenças, pelas diferentes visões de mundo, então podemos falar em culturas. Lembro-me de que, no Crato, na década de 1970, quando fazíamos o “Grupo de Arte Por exemplo”, nunca fazíamos esta divisão. Conviviam, lado a lado, o mais radical dos artistas da classe média, “antenado” com a vanguarda dos centros urbanos internacionais, com o mais tradicional artista de Juazeiro. No “Salão de Outubro”, expunham de Luiz Karimai a Mestre Nino, Walderedo Gonçalves e Geraldo Urano. Nos shows, participavam da orquestra de padre Ágio, de formação erudita, à banda de pífanos dos irmãos Aniceto, de Patativa do Assaré a Abdoral Jamacaru, de Jefferson de Albuquerque Jr. a Mestre Aldenir, de Zé Gato a Luiz Carlos Salatiel, de Cleivan Paiva a Severino do berimbau de lata. Era um grande encontro de diferentes classes, de diferentes níveis, de diferentes origens, fazendo uma só coisa: cultura. As diferenciações entre cultura popular e erudita, entre cultura de massa e cultura nacional, surgiram para nós nos embates travados pelo jornal e movimento “Nação Cariri”, acredito que com alguma influência dos debates dos CPCs da década de 60, dos movimentos de libertação nacional na África e na América Central, dos conceitos de esquerda, então em voga. Foi um debate intenso, interessante. Acho que o reconhecimento do que hoje chamamos de “cultura popular cearense” se deve muito ao que se fez naquela época.


SOBRE O FILME Patativa do Assaré, Ave Poesia

11. O filme, que será lançado dia 3, em Fortaleza, é o resultado de décadas. Como esse filme foi sendo construído?


R – Estamos lançando nacionalmente o filme “Patativa do Assaré – Ave poesia”. A estréia será em Fortaleza no dia 3 de março, no cinema do North Shopping, depois entra em cartaz no Cine Unibanco, do Dragão do Mar. A partir de abril, o filme será lançado nas principais capitais brasileiras, em salas de cinema de arte e em cineclubes de todo o País. No segundo semestre, lançaremos também o DVD do filme, incluindo extras com Patativa recitando poemas e uma das visitas que ele faz à casa do meu pai, onde conta piadas, relembra cantorias e conta causos.
Este filme foi construído ao longo de 30 anos. Na raiz de tudo, está a minha amizade com Patativa do Assaré, que é meu compadre e já era meu ídolo, desde o meu tempo de meninice. Acompanhei de perto a sua trajetória, a sua luta, os seus grandes embates políticos, a sua ascensão como um grande nome da cultura brasileira. Depois editei alguns dos seus livros, produzi alguns dos discos e recitais dele. Durante todo esse período, registrei a vida e as aparições artísticas do mestre, em cinema e vídeo. Embora, antes, eu tenha feito, com Jefferson de Albuquerque Jr, um curta-metragem sobre Patativa, a idéia de fazer um longa-metragem me surgiu de forma muito afetiva. A idéia surgiu com a sua morte, como se o filme, a nível simbólico, pudesse ser a sua ressurreição. Nos últimos anos da vida de Patativa, por conta das minhas viagens, pelo Brasil e pelo exterior, praticamente não via mais meu compadre. E não pude visitá-lo, quando ele já estava doente, antes da sua morte. Eu soube da morte dele por meio de um telefonema de seu filho, mas a morte dele não me chegou como uma verdade definitiva. Patativa já era uma espécie de “mito popular”, e eu não podia conceber a sua morte. Ele morreu, e eu disse: “não morreu, porque eu não vi”. Como eu estava viajando, dei instruções a uma equipe para que gravasse os funerais. Depois, revendo esse material, vi que Patativa estava morto. E isso me abalou profundamente. Fiquei muito emocionado. Durante anos, eu não quis mexer nesse material. Eu tinha dezenas de horas de material gravado, mas não queria me debruçar sobre essa memória, esses sons e essas imagens, pois isso seria mergulhar em boa parte da minha vida, tantas eram as coisas que estavam ligadas a mim, aos momentos que vivera. Um dia, resolvi me debruçar sobre esse material.


12. O que você pretende fazer com o tanto de material que ainda guarda do poeta?


R – Alguns poemas serão autorados no DVD duplo que lançaremos. Com o material sonoro, vou preparar alguns projetos de CD e doar para o “Memorial Patativa do Assaré”, juntamente com as matrizes dos DVDs. Agora o acervo como um todo irá para o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, que tem condições de guarda e manutenção deste material, passando a integrar o patrimônio do povo brasileiro. Distribuirei cópias do filme por algumas cinematecas da Europa e da América Latina, de tal forma que este material possa ser preservado para a posteridade. Patativa é um tesouro do povo brasileiro, e todo este acervo pertencerá à nação brasileira. Gostaria de deixar este acervo no Ceará, mas não encontramos interesse e nem mesmo temos condições técnicas de armazenamento deste material sensível. Mesmo com todo o cuidado e com o alto custo de manutenção, algumas fitas já estão se deteriorando. É urgente eu enviar este material para o Arquivo Nacional, estou catalogando o material para fazer isto. O Ceará não gosta de memória. Nomes como Cristiano Câmara e Nirez são raras exceções. Estes homens fazem um trabalho extraordinário pela preservação da nossa cultura. São os guardiões da alma cearense, mereceriam estátuas em praças públicas, ainda em vida.


13. Rosemberg, você considera que a memória do Patativa está sendo valorizada para além do caráter político e institucional?


R – Bem, eu tenho uma opinião muito particular sobre a obra de Patativa, no que diz respeito ao seu uso. Acho que o Estado do Ceará devia fazer um acordo com os herdeiros patrimoniais da obra de Patativa, pagar por estes direitos, uma quantia justa, ficando com a guarda e depois disponibilizando esta obra como patrimônio público, para que todos pudessem gravar as suas canções, para que seus cordéis fossem reeditados nas feiras de Juazeiro, para que seus livros circulassem livremente. De interessante, neste momento, vejo o uso da internet e a imensa quantidade de poemas, imagens e fotos de Patativa que circulam na web, temos até mesmo blog na Itália, com seus poemas traduzidos para o italiano. Há também uma apropriação por jovens artistas nordestinos. Tudo isto é muito bom, tudo isto é bem saudável. É por este motivo que eu penso em disponibilizar o material que tenho sobre Patativa para o Arquivo Nacional, junto com todos os outros materiais que tenho sobre cultura popular do Ceará. Esse tesouro deve pertencer ao povo brasileiro. É claro que, pelas leis atuais, qualquer uso deste material só poderá ser feito com autorização da família de Patativa.


14. Como você pensou a montagem do filme? Em que momento, os depoimentos passaram a ganhar forma? Eles estavam no roteiro desde o início?


R – Eu filmava e registrava Patativa com o que tinha nas mãos, nos diversos períodos, em que convivemos. Eu usei Super-8, filme 16mm, Vídeo U-matic, Betacam, Vídeo digital etc. Fui acompanhando a revolução tecnológica. Isso resultou em um importante acervo sobre a memória desse grande artista brasileiro. Terminei por fazer um longa-metragem, mas acontece que Patativa é de uma grandeza que não cabe em um só filme. Muitos outros filmes, com certeza, virão, mesmo que sejam realizados por outros cineastas. O material que tenho sobre ele possibilitará outras abordagens, como a relação de Patativa do Assaré com a natureza. Ele sempre foi um grande defensor da natureza. Quando estamos montando um filme, é sempre uma coisa arbitrária escolher um poema e não outro etc. As entrevistas também foram assim, mesmo as que estavam no roteiro foram cortadas ou refeitas, ou foram acrescentadas. Muita coisa importante fica de fora. Ficaram de fora cenas do cotidiano dele com a família, ele fazendo brincadeiras com os netos, fazendo poesia pros amigos, fazendo versos engraçados. Há coisas interessantíssimas. Foi muito difícil montar este filme. Passei quase três anos mexendo nesse material. Montando e remontando. E, num primeiro momento, fiz um filme imenso, com cincos horas de duração. Na verdade, fiz um seriado de cinco filmes, cada um relatando 20 anos da vida do poeta e dos principais acontecimentos históricos, que eram revistos a partir da poesia e da vida dele. E fazia experimentação de linguagem. Mas depois eu compreendi que o melhor pra esse filme era ser singelo, que o filme devia ser apenas um suporte para que o próprio Patativa se revelasse.


15. O filme tem pelo menos dois momentos que simulam um final, mas o documentário segue. Você fez alterações no final do filme?


R – Depois que o filme ficou pronto, não fiz alterações. A idéia é terminar como uma coisa cíclica, a criança do final é a mesma do ritual da morte do início. O legal deste filme é que a estrela do filme é Patativa, não é o filme ou o seu diretor. O filme é apenas um “cavalo” para manifestação do Orixá. O filme é um jangadinha carregando um monstro sagrado, quando talvez fosse preciso um transatlântico. Acho que nisto reside a importância do filme. Eu diria que o filme é quase uma conversa daquelas de calçada. Antigamente, no sertão, o pessoal botava as cadeiras na calçada à espera da fresca do vento de Aracati. O filme é isso, uma conversa sobre um homem de grande arte e de grande generosidade. Espero que as pessoas entendam assim. Que percebam o filme como uma conversa no pé de calçada à espera do vento que sopra. Mas, ao mesmo tempo, é um filme que traz muitas inquietações políticas, que diz muito sobre quem nós somos.


16. O que é mais gratificante em Patativa do Assaré, Ave Poesia?


R – Há uma alegria que não está no filme, embora esteja ligada ao filme. Conto o causo. De todo o material que filmei com Patativa, em Super-8, na segunda metade da década de 1970, sobraram alguns fragmentos em que ele aparece com o meu filho, Petrus Cariry, seu afilhado, então com três ou quatro anos. Petrus, que também é cineasta, pegou um pequeno fragmento deste Super-8, que não usei no filme, uma cena em que Patativa o leva para uma roda gigante, e, desses poucos segundos, fez um filme curta-metragem, de 12 minutos. Este filme é surpreendente e comoveu-me muito quando o vi pela primeira vez.
A outra grande alegria, a maior, é ver o filme circular e perceber a emoção das pessoas. Quero que este filme seja visto por todo o Brasil. Estou liberando o filme para que ele siga o seu caminho, com exibições em acampamentos de sem-terra, em mostras universitárias, em bairros e favelas, em salas de arte, em cineclubes, em barcos na Amazônia para populações ribeirinhas etc. O destino desse filme é ser do povo, assim como Patativa do Assaré era um poeta do povo. É legal toda essa movimentação em torno do filme.
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Currículo resumido do diretor
Natural do município cearense de Farias Brito, nascido em 1953, Rosemberg Cariry é filósofo de formação e cineasta por vocação. Poeta com cinco livros lançados e um dos fundadores do movimento de arte e cultura Nação Cariri. Como cineasta, estreou em 1986 com o documentário O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. No currículo, possui ainda os filmes O Caldeirão da Santa Criz do Deserto (1985), A Saga do Guerreiro Alumioso (1993), Corisco e Dadá (1995), A TV e o Ser-Tão (1999), Pedro Oliveira, o Cego que Viu o Mar (1999); Juazeiro, a Nova Jerusalém (1999); Lua Cambará - Nas Escadarias do Palácio (2002), Cine Tapuia (2006) e Siri-Ará (2008). É proprietário da Cariri Filmes, empresa especializada em produções audiovisuais. Atualmente é presidente do Congresso Brasileiro de Cinema – CBC.

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